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motorista de um conflito maior

Atualizado: 5 de set. de 2023


leitura de O MOTORISTA DE MÉDICI

Texto do escritor Carlo Benevides


Mário Rodrigues inicia seu novo romance com um veredito estarrecedor:


É terça-feira de carnaval, a chamada Terça-Feira Gorda. Descubro quem foi meu tio: Abel Rodrigues de Lima — um torturador.
motoristas de médicis

Que os assim insultados bugres literários venham nos destituir a glória do monte de besteira que se tornou nossa aurora da escrita criativa — esta redundante escatologia de tanta besteira —, pois se os marginais de hoje representam uma escrita mais politizada, que seja eu (!) considerado um vadio tropeçando em uma perfumaria para elites de cristais.

O Motorista de Médici me salvou no ano a necessidade de me vingar do que vinha lendo. Este livro tem a magreza necessária daqueles que não querem me seduzir com fórmulas mentais e parágrafos "matadores". Desconfortou-me na leitura. Conseguiu me causar insegurança quanto ao rumo da trama, mas deixou-me um medo terrível de que o autor tentasse procurar um perdão para seu tio [ou aqueles nossos tios e tias devassos, amantes, participantes, coparticipantes ou apoiadores da maldita ditadura militar brasileira (1960/1985) — estas viúvas vadias do fascismo]. Não foi o caso. Acalmei meus pré-conceitos. Ele escancarou exatamente seu conflito enquanto sobrinho escritor do personagem, aterrorizado por não saber como tratar das feridas lambidas expostas, após o tio se encontrar nu, perante sua inocência, para depois de homem feito, seu desapontamento.

Pegarei de propósito termos usados pelo autor em vídeos falando da obra, esta obra (pois sou promíscuo defensor de pensar pelas palavras ditas), a fronteira entre gêneros literários que o autor, de propósito, cambaleia entre o literário e o documental. A história é o documento, mas a relação do narrador com o personagem é onde se trafega com segurança a literariedade da obra. Letal para nossa angústia, pois trata-se de duas pessoas reais, o narrador em forma de gente e o personagem. As duas feitas sujeitos de uma trama literária baseada em fatos reais.


contracapa

Uma profunda agonia ao perceber do conflito entre um narrador histórico, documental, com um personagem que, para este narrador, é tão íntimo e o era (aí não sei) muito querido. O conflito emocional e moral de 'O Motorista de Médici' é shakespeariano, por tratar de conflitos existenciais do que é 'ser humano' e 'refém de tempos e descobertas', daquelas que nos pregam peças e refém, sobretudo, de nossas memórias emotivas (aí sim), causador do clímax da tensão entre narrador e personagem, nos aprisionando em nossa própria história de vida e no meio que nos cerca — aquele que desnuda nossos pecados como pessoas de bem — tão branquinhos, classe média e héteros, iguais a mim.

Mário é torturador, claro, não como o seu tio Abel, mas na forma da tortura lida, quando somente em textos de uma técnica dura e sem rodeios sociais e politicamente reflexivos, nos revela o estranhamento, o desconforto e a insegurança que, por 'sermos humanos', é exatamente o gatilho para não conseguirmos parar de ler a história deste romance, apesar de toda a aflição e antojo, tornando este livro perigosamente viciante.


Difícil não cair nas armadilhas semióticas de Mário Rodrigues.

Eu fiquei pensando, após ler O Motorista de Médici, pela crescente negação do Brasil e pela falta de interesse pela nossa história, nas salas das escolas brasileiras e nas telas de quem escreve literatura neste país, quantas histórias baseadas em fatos reais deixaram de ser literariezadas por nossos escritores? Mário é um valente abusado, espécime raro na literatura, para substituir a grande maioria naturalizada de escritores/poetas herméticos e narcisistas neste stultus mundi e era contemporânea. Não me venham dizer que Mário e seu motorista é para poucos! Saiam de mim os arautos da literatura dos boçais! O Motorista de Médici é para todos! Um respiro de inteligência narrativa.


Em meio a tantas vitórias rasas dos nossos dias, aqui temos vitórias claras: Mário não anistia o tio torturador(!); Mário nos leva perversamente para a atmosfera tenebrosa dos anos de chumbo; Mário constrói história com literatura.

E assim me vou, com minha deliciosa bugrinha, esta obra, que tive uma relação tão íntima e enojada, doada por um autor do Garanhuns pernambucano, a quem agradeço e, enquanto editor, peço que voe; enquanto escritor, que me mate de inveja para, enquanto leitor, sofrer de tesão por tanto sofrer de curiosidade e espanto.


Mário? Saiba. No fim olhei para o livro, acendi meu charuto, baforei e perguntei: Foi bom pra mim? Foi, não. Foi, sim. Na verdade queria mais. E este foi o seu pecado: ter um fim. Ter propósito, relevância e lugar reservado em qualquer estante, foi o seu acerto.



Carlo Benevides, é escritor, editor e produtor cultural, o cabra que inventou a OIA editora.

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