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A ALEGRIA DA CRIAÇÃO RESPONSÁVEL

Atualizado: 2 de set. de 2023


Thiago Medeiros

leitura de SINFONIA PARA VAGABUNDOS

Texto do escritor Thiago Medeiros



Adapto-me ao primeiro questionamento trazido por Carrero nesta obra. Então, como iniciar um prefácio?

Estamos diante de um livro em pleno movimento dialético, no formato mais simples da dialética, as interações entre tese, antítese e síntese, elementos encarnados em:

  1. a obra antes da escrita;

  2. obra durante construção de si própria;

  3. seu término, a apreciação de um conjunto final, corpo dividido em membros distintos, coesos quando apreciados na unicidade.

Desta maneira chamaremos a), na falta de termo mais preciso, pois confesso tratar-se de uma apressada tentativa de batizado, sem precisar aprofundar-se em academicismos, pelo enigmático, e tão repetido e quase nunca explicitado, termo de técnica literária, enquanto b) nos será a narrativa.

Sobre a apurada técnica, preocupação constante em Carrero desde seu primeiro livro, A história de Bernarda Soledade, a Tigre do Sertão, magistralmente escrito quando tinha apenas 23 anos, não pretendo falar muito. Faz-se desnecessário diante da apresentação do próprio autor, escrita para a 3ª edição desta Sinfonia. Ainda assim, cumpre-me o dever de justificar a opção pelo título deste prefácio. Trata-se de uma frase solta, você a encontrará adiante durante a leitura, no caso aqui passando por uma pequena corruptela. Para Raimundo Carrero não cabem irresponsabilidades diante da palavra escrita. E isso passa longe das romanescas visões sobre o ofício de escritor. Filhos ou amantes das musas, aguardando inspirações? Jamais. Um escritor é, sobretudo, responsável pelo próprio texto, parecendo óbvia a seguinte afirmação, mas necessária em ser dita, um texto é formado por palavra escrita. Logo, a maestria do ritmo tem de se dar através do pleno conhecimento da palavra. Tempos e modos verbais não são gratuitos, nomes de personagens não são gratuitos, o desenvolvimento de um enredo, na realidade uma interpretação do mundo por parte do autor – e não do narrador, coisas até mesmo adversas –, não é gratuita.

Então vamos à narrativa, vamos ao mundo de Sinfonia para vagabundos, sob a batuta do maestro saxofonista Raimundo Carrero.


O ÚLTIMO ARMORIAL


O escritor salgueirense não apenas inicia a vida literária durante a efervescência do Movimento Armorial, na década de 70, e não apenas isto. Foi discípulo direto de Ariano Suassuna. Com ele compreende a potência do movimento, não resumida ao velho clichê de tratar-se de uma valorização das culturas populares do Nordeste, em busca de uma arte erudita. A laboriosa, e narcísica, preguiça acadêmica e crítica sempre conduz a estereótipos efêmeros, para nos mantermos sob a égide dos eufemismos.

Em primeiro lugar, apenas para nos atermos sobre especificamente de onde falamos, o Armorial nunca tratou de Nordeste. O movimento debruçava-se sobre um excerto específico, o qual continha similaridades estéticas e culturais, alcunhado, por Ariano Suassuna, de Coração Armorial do Brasil, compreendendo Pernambuco, Paraíba e o zona do Sertão do Seridó no Rio Grande do Norte – ou seja, esse estado não era incluído na totalidade, o norte potiguar, incluído sua capital, possuíam uma outra dinâmica. A exemplo disto, o Ceará, em O romance d’A Pedra do Reino, as personagens, num dado trecho, tratam o Ceará como metáfora para longa distância, tratando-o praticamente por um outro país. Nada mais acertado. Não teve uma colonização baseada no ciclo da cana-de-açúcar, seus movimentos emigratórios eram distintos em relação, por exemplo, aos pernambucanos. Por cá – leve-se em conta, escrevo diretamente do Agreste pernambucano, esta zona de transição entre as tradições do sertão e a vida cosmopolita da capital –, os fluxos eram mais internos, algo lembrado constantemente pela lírica de João Cabral de Melo Neto. Também poderíamos citar o expurgo da população judaica das terras pernambucanas, quando da expulsão dos holandeses, alguns encontrando refúgio pelo Ceará, talvez estando isso por trás de formatos religiosos típicos do estado, bem como os tantos movimentos messiânicos oriundos de lá – não custa lembrar, Antônio Conselheiro era cearense –, mas fiquemos por aqui. O Nordeste não é, nunca foi e jamais será uma massa uniforme distópica e utópica sobre seca e praias arrodeadas por coqueiros.

A estética proposta pelo Movimento Armorial é uma constante construção sobre metáforas. Não se trata de retratar o mundo tal como é, a potência metafórica assim o fará, jamais estando distante da realidade. Há sim a interpretação e crítica social, não se trata de um movimento acrítico, muito pelo contrário, até mesmo porque as ditas culturas populares nascem através da interpretação das culturas estrangeiras colonizadoras. Mas aqui é Arte, Literatura, e não jornalismo, e Arte e Literatura, quando em seus momentos de crueldade, jamais conseguirão ser tão cruéis quanto o mundo agônico ao qual se propõem interpretar.

Mas por que esta extensa digressão sobre o Armorial?

O Movimento Armorial não se extingue na década de 70 e, principalmente, Raimundo Carrero jamais deixou de ser um continuador dessa estética, mas através de uma perspectiva muito própria, configurando uma estilística de Armorial Urbano.


FARDO CONTEMPORÂNEO


Então estamos diante de uma narrativa plenamente construída sobre metáforas. De certa maneira, por estar estruturada sobre este formato e por não conter datas, Sinfonia para vagabundos nos é contemporâneo, mais de três décadas desde sua primeira publicação. Ainda assim, vamos tomar alguns referencias temporais do texto, denunciando a data das do mundo ao redor do autor e quais críticas traziam em si.

A primeira passa despercebida para quem não conhece Recife – finjo conhecer, no orgulho de um caruaruense enraizado, jamais apartado da cidade por mais de 20 dias em toda vida –, tratando-se do peixe-boi na praça do Derby. Tratava-se de Xica, uma peixe-boi fêmea mantida como atração, cruel atração, num tanque da referida praça. Ficou por lá ao longo de 22 anos em condições precárias, sem jamais ter tido a possibilidade de um mergulho em águas profundas, raso que era o tanque. Estamos entre os 70 e começo dos 90.

Num diálogo entre Gonçalves Dias e Allen Ginsberg, reforçando possibilidades sobre universalização discursiva da condição humana – possibilidades apenas, duvido muito de universalizações –, Carrero afirma:


“(...) eu também vi a minha geração balbuciando embriagada, trôpega, perguntando pela vida, chocando-se, chorando, dizendo quem precisa de mim sou eu, morrendo sob o jugo da tortura, nos melhores anos da vida, perdendo pernas e braços, unhas e dentes, esmurrados, metralhados, encurralados, pisoteados, fugindo e perseguidos (...)”

Vamos nos ater um pouco às formas adotadas pelo livro. Tratando-se de um “eu vi”, no pretérito perfeito, uma ação consumada no tempo, e não mais um “eu vejo”, no presente simples, estamos em algum período pós-redemocratização, tratando as feridas, abertas, incuradas e incuráveis até hoje. O tempo reduz-se para o final dos 80 e começo dos 90.

Noutro momento, o professor Deusdete deixa sobre a mesa uma nota de 500 cruzeiros, equivalente a quase 20 reais. Este padrão monetário esteve, pela última vez, em voga entre os anos 90 e 93. Já encurtamos em muito nosso cenário.

Mas o definitivo está naquilo que, sob uma leitura simplista, para alguns poderia se tratar apenas de uma alegoria acerca das histerias da vida nas metrópoles, ou simplória crítica às alienantes estruturas capitalistas. Os suicidas. Aos muitos, aos montes e aos monturos, com despedidas bastante específicas. Estão lá os “industriais falidos”, a frase de Natalício a Virgínia “todos os comerciários decidiram se matar”, “desempregado”, a “palavra-chave fome”, “podridão”. Não seria uma Recife qualquer a nos trazer essas possibilidades, afinal não seria um Brasil qualquer em tamanha convulsão. É o Brasil do confisco das poupanças pelo governo Collor, em 16 de março de 1990. É este um dos alvos da crítica, é este o arauto das misérias recifenses, pernambucanas, nordestinas, brasileiras, expostas nos solos de sax desta Sinfonia.

Definido nosso excerto temporal, trataremos a obra por datada? Jamais. Um melodioso, desarmônico e desconjuntado não. Nos segue contemporânea a narrativa, afinal já é 2023 – permitam-me ser datado, diferente da obra –, julho especificamente. Desde 2016 acompanhávamos “os nobres cidadãos do meu país cuspindo nos pratos dos pobres, roubando o resto que havia, eternizando-se no poder”, culminando em oito de janeiro do presente ano, quando acompanharíamos horrorizados, enojados e estarrecidos, “um grupo de homens sujos assaltando palácios e governos, meninos, eu vi”. E estavam lá novamente todos os atores políticos de sempre. Militares, oligarcas, políticos e a famélica classe média resguardando a moral e bons costumes. Quais exatamente, não sabemos. E sim, uma classe média famélica, ávida comedora das migalhas neoliberais, deglutindo meritocracia, regurgitando racismo, xenofobia, homofobia, aporofobia, em fel de ódio, muito ódio. Não há limites para o ódio e autodesprezo da classe mé(r)dia e das viúvas da ditadura. Odeiam a si mesmos e odeiam o Brasil.

A alegoria final da narrativa, Natalício carregando o menino morto, baleado no rosto, encontrado no lixo, pelas ruas de Recife, enquanto um mundo imparável atiraria esmolas – aos médios sempre bastarão as esmolas, os farelos, os restos, as sobras, diante da miséria, diante da morte, diante de uma criança com um tiro na cara, o dinheiro nos valha, valha-nos “las platitas, bacanito”, em cruzeiros e reais – segue sendo a silenciosa metáfora de um Brasil encarcerado às molduras do bom-mocismo, do homem cordial, entregue à caridade cristã, enquanto a polícia mata em público um homem numa viatura adaptada a câmara de gás, à luz do dia, sem receio algum das câmeras, ou quando em Santa Cruz do Capibaribe policiais promovem um cortejo de moscas e sangue seco sob os aplausos dos cidadãos de bem, enquanto intelectuais lançam notas de repúdio e o Povo vai à cata de ossos nos açougues. Lateja sôfrego o Brasil, há anos, há décadas, há séculos, podre Lázaro ao aguardo de quem o ressuscite, e é isso. Até quando, não saberemos. Ainda assim, haverá quem exiba a crueza das chagas abertas, cada vez mais escancaradas, sob a chuva de indiferentes moedas.

Por ora, chega. Deixo-vos às mãos de um Mestre. Aprendam técnicas e, se possível, indignem-se, leitor e leitora. Ainda são capazes. Sei, sabia e saberia disso.

Salve Deus!

Salve Raimundo Carrero, o Último Armorial.

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