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CRUVIANA é um daqueles livros marcados para ficar


leitura de CRUVIANA

Texto de Ferreira Lima


ovina Benigno resgata um fenômeno climático e atemporal do Norte e bem Nordestino, de nome belíssimo, embora hoje em desuso, para compor nome de capa e atravessar todo o seu livro. Não sei se porque entrei no livro procurando a Cruviana, senti a sensação de frio perpassando os poemas, tal o realismo de seus versos:


Cruviana

Trança a névoa entre porta e piso

benquerença de entranhas

pais e pernas, outra trança


Jovina Benigno não se fez poeta de agora: se fez desde sempre.


Ela é “estrangeira deste tempo”, “Ri da distopia” e distopias, deste “século de ininteligíveis gaguejos.”


É “afeita à sedução“, “vem de preparos para amar” por afeição. A pele das rosas repousa em suas pestanas, por isso sente tanto o cheiro e enxerga tão clara a poesia nas entranhas das pessoas e das coisas; da Cruviana que encharca os corpos e goteja nos baldes dos quase sem teto. Sua poesia é um pulo certeiro no “mel quente” da certeza, pois “Raso é o fundo dos sonhos”. (Que verso estonteante!!!)

CRUVIANA

Jovina traz no rastro de seus sapatos molhados toda a experiência vivida com a poesia. Suas palavras soltas, suas metáforas, seus frequentes anacolutos, suas antíteses e sinestesias dizem tudo que ela sabe e tudo vira poesia articulada, lírica e cortante, quando o poema pede: não tem o menor pudor de dizer que é poeta e o faz com toda a autoridade de quem domina sem esforço a trama dos versos.


“Como não ser poeta?

Em mim

o pulsar de tudo

não aceita silêncio.”


“Como não ser poeta?

Ao poema pertenço.”


E diz com toda autoridade:


“Respeite meu nome subscrito

sou poeta em cena, sem lágrimas

à frente das cortinas.”


O certo é dizer que a linda poesia de Jovina é feita de realidades, vividas, vistas e ouvidas; de sua feminilidade declarada; de mergulhos insepultos e de memórias sepultadas; de lembranças recentes e/ou d’antanho. (Ela cultiva o hábito de “Varrer lembranças no paiol”).


Jovina não inventa nem simula fatos para botar na boca do poema: ela tão só escreve a poesia vivenciada como quem corta lenha com um machado, picotando os versos em feixes e flepas de extremas belezas. Mas não esquece de dizer o que é de fato, sem ser banal, em versos maduros de sensualidade, em toda a extensão do livro e, visceralmente sexual no poema “O Cheiro dos Igarapés”:


“Por vezes nasceria mulher,

por amor a esse nome

arreliei codinomes.”

“Véu para sedução,

sou mulher

vezes outras ainda

foz caudalosa”

“Sou carne de Maria”

“Homens e mulheres,

beijo suas bocas

lambo seus sexos

sem olhos vendados.

sou Afrodite,

orquídea em cada esquina”


E lembra ainda, em verso, do tempo de dormir ao relento, em pleno abandono, em


“…colchão de formigas,

olhando o céu,

a liberdade das estrelas.”


E dos desencontros, enquanto amante, que parecem ainda lhe doer na alma e na carne:


“Como pude abandoná-lo?!

era o preferido

e o larguei num desmazelo

de quem, distraída,

põe no cesto do quintal

as cascas gêmeas da laranja,

exauridas no portento suco.”

“andei revendo nossos dias.

alvorecer e anoitecer

somos hoje desencontro,”


Mas a poeta não é só sensual, sexual, amante em seus poemas: é uma mulher real politicamente correta que chega a sentir no ar a cremação derradeira dos perversos, e vê


“… Elias descendo fogo do céu,

um cheiro enxofrado

de assado de fascistas

sem um faltar na lista”


Leitora de Bandeira, (e por que não arriscar de Adélia Prado), vez por outra faz remember, em versos bucólicos, de sentido duplo, atalhos das meiguices e mulherices[1] que vem fazendo pelo caminho (pois, como dizem por aí, Toda mulher são duas (pelo menos) em uma


“frutas caia.

maduras para a boca,

vermelhas, verdes, macias.”

“Na falta de cestas,

abri a saia cor de telhas

e carinhosa as peguei,

uma por uma,

e as distribui pelo caminho,

doce vinho.”


De resto, em suas Memórias Sepultadas, são “Vidas e versos no cheiro do café…”; o tempo de menina, sem bonecas; o convívio com os irmãos e as lembranças das serenatas rentes às seis janelas da casa de seu pai:


“cachos pregados à nuca

nunca teve uma boneca”

“Traz o desejo nos versos:

boneca cabelo grande

vestidos cheios de fita

uma caixa de sorvete

comida para a família

uma casa bem bonita

um rio para nadar.”

“Das janelas de minha casa,

Saudoso,

pai Raimundo,

cúmplice bondoso:

“filhas, venham para a janela,

tem serenata,

ouçam caladas,

não quero filhas faladas”.


Seu Raimundo aparece como o grande personagem na vida da menina e da moça Jovina, seguido de seus irmãos e sua mãe:


“Seco o suor do pai

na memória o herói

pai Raimundo:

cruvianas, comunismo

jornal Voz Operária

(num segundo enterrado

no quintal de goiabeiras)”


Daí seguem em flashback as imagens de seus mortos de infância e os fantasmas de agora, como mesmo confessa a poeta:


“Meus mortos vêm

da infância chuvosa:”

“Não é paz desconhecer

de onde continuar,

parada frente à rotatórias

repletas de fantasmas.”


Como já dizia Ednardo na música “Está Escrito”, de seu álbum “O Azul e o Encarnado”, de 1977, pela RCA VICTOR: “Que primeiro se deve viver / que é pra depois poetar”.

Em uma certa viagem a Juazeiro do Norte, Jovina perde a bolsa com alguns dos seus pertences e confessa metaforicamente que “o poema de uma vida” não se escreve antes, sem viver primeiro:


“Numa sacola perdida

quase vazia

pesa o poema de uma vida”


Cruviana é um livro-poema que tem o peso extraordinário de uma vida, pela sua unidade temática, por sua técnica e por sua grandeza poética.

É um diário de vida para ser lido em voz alta.

Utente de palavras comuns Jovina tem a habilidade de quem já é grande na ourivesaria dos poemas: seus versos são assentados pedra por pedra: não faz poesia para quem é bobo, mas para quem é do ramo. Como diria o poeta pernambucano Samuel Vânia Costa, Jovina não se utiliza de coberturas, ela “despreza as superfícies e ama o mergulho que descobre as riquezas imperecíveis.”

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