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Duas vozes em "Ponteiros de Guerra"


leituras de PONTEIROS DE GUERRA

Textos de Thiago Medeiros e Cida Pedrosa


A poeta e o tempo, o tempo da poeta


Toda escrita pressupõe um cenário, isso inclui, também, a poesia. Neste caso, principalmente, não se trata de um cenário condicionado à estrutura da escrita em si, mas o mundo rodeando quem se dispõe a interpretá-lo pelo fazer poético. A poesia pertence ao “eu”, esta pequena entidade em constante interpretação de si, dos outros e do mundo. Então, qual mundo rodeava Fernanda Limão quando esta iniciou Ponteiros de Guerra?

Era 2020, nos encontrávamos sequer em condição de nos amotinarmos, enquanto as ruas descarnavam-se das carnes das gentes e nos entocávamos como podíamos – tantas e tantos não puderam fazê-lo –, sob o medo de um vírus desconhecido, tornando nossos amores suspeitos de carregar, inocentes, uma nova mazela, ameaçando a todas e todos com o fim sob uma trágica asfixia. E assim o Brasil perderia 700.000 filhas e filhos.

Desde as primeiras linhas, Fernanda Limão nos rememora o esfacelamento cronológico daquele período. Não nos serviam calendários, relógios não significavam muita coisa para além de lembrar-nos, sim, por mais cinzenta e insossa a aparência dos dias, algo ainda escorre. Viscoso e agourento nos escorria o tempo.

Mesmo advindo de um cenário bem determinado, não se deve dizer, desta obra, ser datada, rígida ou engessada sobre este excerto temporal. Sua grandeza reside no fato de, a partir de um recorte específico, Fernanda Limão atinge uma universalidade independente de datas. A linha-mestra destes poemas é o embate entre individualidade e tempo, este imparável ser, sempre em falta para conosco.

Nos serviria em algo rebelar-se contra o tempo? Não. Atônitos e atônitas diante deste, a poeta nos recorda, a sublevação é contra poderes eminentemente humanos, tão à mercê do tempo quanto qualquer indivíduo. Saímos dos nossos leprosários, correram calendários e relógios, mantém-se sempre a luta, a despeito das carreiras do tempo. O grito de Fernanda Limão contra o poder político daqueles dias– mambembe projeto da ladroagem dos cães neofascistas – é um brado atemporal contra explorações antigas e contínuas.

Pode-se dizer deste livro, é uma obra, sobretudo, sobre o tempo. E sobre sua poesia, esta permanecerá atual a todo tempo.

Viva a rebeldia fina, pontual e lírica de Fernanda Limão.



Capas Ponteiros de Guerra


Uma poesia para não medir as horas

Cida Pedrosa
Cida Pedrosa

Entre com o olhar em punho e as mãos em formato de asas, pois esta poesia decerto te afetará. Te pegará daquele jeito que um pássaro te pega ao pousar na tua veia em tarde de domingo, ou quem sabe daquele jeito sem jeito de palavra desengaiolada e que esqueceu tem tempo de contar as horas. Ela me pegou! Daquele jeito que a poesia boa pega a gente: derruba no chão, faz pensar, chorar e rir de canto de boca ou, simplesmente, nos faz virar paisagem, ou voyeur, ou puramente palavra. É tudo isso e muito mais. É a precisão do texto em poemas curtos que são imagem, som e delírio. Deliciosamente precisos estes poemas. Apurados. Trabalho de bordadeira ou de ourives? Trabalho de quem acredita que o poema ascende à página em posição de oração.


Horas, horas, horas... Quanto tempo temos para nos encontrar, nos despedir de nós e do e da outra, nos acabrunhar ou nos perverter? Quanto tempo temos para lutar ou ficar imóveis, indiferentes, letárgicos? Ou, quanto tempo cabe na página de um livro, entre um verso e outro, entre uma pontuação e outra.


Horas, horas, horas... 24 horas divididas de seis em seis para perfazer quatro momentos de uma primeira parte de um livro dividido em três capítulos como a dizer das horas abertas em que os céus se abrem para anjos e demônios. Horas vertidas de sangue e de esperas, paraísos e percalços, onde os poemas se embalam em incríveis metáforas e se encerram com fechos, de verso único, binário ou terceto, sumo do próprio poema ou até de um novo poema.


Neste livro, os ponteiros exercitam a tarefa diária contra a mesmice e o desencanto dos segundos e em “estado de guerrilha” “vira bomba por um fio”, pois o “tempo de guerra” é “tempo de precipício e se luta”, afinal, na “premissa das horas” nem sempre “os pés são bussolas”.


Venha, venha sem tempo e sem contar as horas, pois Fernanda Limão nos entrega uma poesia que não reconhece limites geográficos.


Boa leitura!

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