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Das rezas não aprendidas


leitura de Salve Rainnha

Texto de Thiago Medeiros


A poeta e o tempo, o tempo da poeta


Poderia começar dizendo, era junho em Caruaru quando comecei o trabalho de edição deste livro. Era apenas o segundo São João, após dois anos sob um ensaio para o fim do mundo. Até então, lida apenas a primeira carta escrita por Pedro Bryan, já às ruas encontrava encarnaduras de Raquel Alencar no Polo das Quadrilhas, palco montado na Praça da Criança, em frente à antiga Fábrica da Caruá. Vibrava, junto à minha esposa, por alguém escrever sobre elas e sobre nós.

Um breve adendo, talvez não tão breve assim. Sou um caruaruense enraizado, jamais estive mais de vinte dias longe deste pequeno país, enquanto minha esposa é de Campina Grande. Disputas à parte entre a Terra do Avelós e a antiga Vila Nova da Rainha, sim, mais que quaisquer outros concidadãos do universo Brasil, compreendemos os festejos de junho ao ponto de ser nosso referencial de tempo mais palpável. Há uma percepção de tempo, caruaruense e campinense, para antes e para depois do São João. No de antes, nos preparamos para junho, no de depois, aguardamos a abertura do novo ano para aguardar, mais uma vez, o próximo junho, crentes de já estarmos às beiras do fim do ano, nos sendo ligeiramente indiferentes, até mesmo um pouco apáticos, se neste meio tempo há natais, carnavais ou outra coisa que os valham. Para estes dois Agrestes brasileiros, apenas as cores, cheiros – povo, suor e pólvora – e sabor dos amores vividos em junho nos importam, enquanto todo o resto é tocaia de espera.

Salve Rainha

Também poderia começar por algumas lembranças de infância evocadas desde a primeira leitura do título. Era criança, boas três décadas atrás. Nunca aprendi a rezar uma Salve Rainha em inteireza, recordando apenas as tentativas. A primeira, sob as ordenanças de minha avó. Ensinava-me a rezar um rosário escarlate. Não tenho culpa se a repetição me fizera decorar apenas Ave Marias e Padres Nossos. Pela mesma razão, titubeio meu pouco juízo na necessidade de um Credo.

Uma segunda ocasião foi durante a Catequese. Faltei uma aula, sabe-se lá por qual pequena cotidiana tragédia – sim, trágico, tinha sérias tendências à beatitude –, e uma colega me emprestara um caderno, escrito a lápis, para copiar a dita reza. No caderno da colega, a Salve Rainha não vinha versificada, a menina a escrevera reta, sem pontos nem vírgulas. Já apegado à dogmática rítmica da escrita, acabei por não entender nada.

Bom, perdoem-me, sou pernambucano, entrego-me fácil à luxúria das hipérboles, exageros e bonitezas desnecessárias, com gosto e sem interesse algum de resignar-me às dívidas para com o real, afinal, fingir deixa tudo mais bonito. Ter copiado para um caderno uma Salve Rainha reta, sem vírgulas ou outra pontuação, ali durante o catecismo, não deixa de ter sido um primeiro ensaio para compreender a dinâmica desta Salve Rainha aqui, pois também esta é uma reza, humana e pulsante reza, coalhada por risos distantes dos sussurros sob o ciclo das contas dos rosários.

Não importa o início escolhido, todos levariam ao cerne deste livro, oculto nas primeiras cartas. Parto do pressuposto, caro leitor e cara leitora, da sua chegada a este posfácio após o término da leitura, então, tal qual eu, primeiro vimos uma imensa homenagem às tradições juninas.

Lúcio Flávio Gondim
Lúcio Flávio Gondim

Diferente da personagem narradora, Lúcio Flávio conhece, reconhece, identifica-se e homenageia tradições, de formação sócio-identitária, caras ao povo brasileiro. Sim, não sejamos reducionistas, tratamos aqui de um Brasil, há todo um país nesta narrativa.

Depois, nos deparamos com uma narrativa erótica de profunda apneia. Ossificaram seus tutanos? Os meus também.

Finalmente, o centro da espiral. A denúncia da Chacina do Curió, ou Chacina da Grande Messejana, ocorrida em novembro de 2015.

Dos onze mortos, nove tinham entre 16 e 19 anos. Parafraseando o título do mestre Raimundo Carrero, estão matando os meninos.

Três, dos onze assassinados, tinham passagem pela polícia. Os delitos? Ameaça, crime de trânsito e pensão alimentícia. Estão matando os meninos.

Filhos, irmãos, primos, pais, namorados, amantes, esposos, trabalhadores, crianças, planos, expectativas, sonhos, lembretes de fechar o cadeado esta noite, meu filho. Estão matando os meninos.

Mais uma vez, um pedido de escusas por tornar esse relato sobre a obra um tanto personalista. O fato é, já estive no Curió. Era 2019. Percorri suas ruas, enxerguei seus rostos, sentei às portas de seus bares e tomei cerveja junto ao povo risonho, cheio de histórias tantas, do chão do Curió. Também conheci a biblioteca do Livro Livre Curió e todo seu anárquico projeto de reafirmação do orgulho de ser de onde é, sem necessidade de fingimentos e, por isso mesmo, deixando tudo mais bonito.

Poderia me estender por muito mais páginas, na tentativa de abarcar a totalidade compreendida por esta obra, mas faz-se desnecessário. Lúcio Flávio Gondim, na voz de Pedro Bryan, encarnado na radiante Raquel Alencar, magistralmente expõe as tessituras, as chagas e também a força, a recusa em permitir o acinzentamento da vida ao se viver no mundo Brasil.

E sim, antes dos esquecimentos.

Foda-se, Afrodite.

É inevitável, neste solo, ser Maria, sabedora da orfandade de filhos para soldados berrando cadê!, cadê!.

Salve as mães órfãs de filhos!

Salve o Curió!

Salve Lucio Flávio Gondim!

Salve todos os Kezios!

Salve Pedro Bryan!

Salve Raquel Alencar!

Salve Rainha mãe de misericórdia vida doçura esperança nossa salve!


Salve Rainha - capas

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