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CARRERO AGARRADO AO REAL

Atualizado: 2 de set. de 2023



Texto do escritor José Castello



Raimundo Carrero é um homem que vive agarrado ao real. Mais que agarrado: vive em luta furiosa com ele. Dos choques com a realidade, ele extrai suas histórias — tensas, violentas, profundas, amarradas a sentimentos contraditórios e a alucinações extremas. Aferrado ao real como um filho que dele extrai seu alimento, Carrero é um escritor que não só celebra a vida, mas que a explode e a recria.

Não se trata, porém, de um laço reverente e solene. Carrero não está interessado

em fotografar a vida — não é um fotógrafo, que captura coisas. Não se detém, tampouco, nos clichês e nas regras que definem uma geografia — não é, em definitivo, um regionalista, ou um

Ceifa sangrenta em campo de batalha

neo regionalista, como alguns teimam em classifica-lo. A bem da verdade, mal podemos dizemos dizer que Raimundo Carrero é um “autor nordestino”. Sim, do nordeste brasileiro — e, em particular, de sua estética capturada pelo olhar do Movimento Armorial — ele extrai a respiração de seus textos. Mas, desses fundamentos primordiais, Raimundo Carrero salta muito para a frente, agarra com força a ossatura do humano e se transforma em um cavaleiro do homem.

Carrero sabe que a força da realidade não provém só de suas feições sociais, geográficas, materiais. Mas que ela se origina de uma região muito mais inóspita e imprevisível que, no entanto, ainda é parte do real. A realidade não é só o que vemos, ou o que sofremos, mas o que fazemos do que vemos e do que sofremos. A realidade é o modo sábio e criativo com que olhamos a realidade. A realidade é um conceito humano e, por isso, está sempre em movimento, em transformação, inquieto e selvagem. Sem a intermediação do olhar humano, sem a perturbação provocada por sua fúria e por seus sonhos, a rigor a realidade não chega a existir.

A dupla face do baralho

Raimundo Carrero sabe, ainda, que a realidade é uma invenção. Sim, há algo de concreto e material de que partimos — mas isso é apenas o trampolim provisório e instável desde o qual o artista se joga. A realidade é feita, sobretudo, de suspeitas. De dúvidas. Quando nos conhecemos, tinham dito a Carrero que éramos inimigos ferozes. Em outras palavras: que eu o odiava. O fantasma desse mal-entendido se erguia entre nós como uma muralha. A seu respeito, eu sabia generalidades: que tinha nascido no sertão, que era um escritor engajado e agarrado à terra e às suas dores, que era um lutar bravo e incansável. Sabia pouco, muito pouco. Não chegava a entender a sensibilidade e coragem com que Raimundo Carrero, através das palavras, reconstrói o humano. Como arranca, da miséria, a grandeza. Como faz, da dor uma energia. Ele não pratica uma literatura de espelho — não quer devorar ou reproduzir o mundo, tampouco deformá-lo como nos circos antigos. Quer devorá-lo, mastiga-lo à sua maneira, para transformá-lo em algo melhor. Quer avançar.

É só nessa perspectiva que a luta faz sentido. Só se luta para vencer e Carrero só luta para vencer. Por isso, ele viveu, desde cedo, sob o primado da invenção. Ainda hoje, com a idade avançada, mais solitário e meditativo, é dos golpes que sofre do real — através do jornalismo, da TV, da arte — que ele acessa a vida. Não é um contemplador passivo, não é um esteta fútil, jamais será um exibicionista, ou um acadêmico. Mete as mãos nas coisas do mundo não por luxo, ou por vício, mas para acessar o coração das coisas. Foi sob a inspiração de Ariano Suassuna, seu grande mestre, que Carrero entendeu que a realidade está aí para ser revirada e vencida, e não reverenciada. Suassuna lhe ensinou que a verdade não é estática, mas que ela surge sempre atravessada pela potência de um saber. É preciso, sim, injetar erudição e altura ali onde, a princípio, parece haver só um monte de terra. Foi com Suassuna que Carrero aprendeu que é preciso soprar conhecimento e dúvida mesmo sobre as mais sólidas verdades. Agitar, revirar, interrogar, perturbar — porque a vida é uma só e deve ser vivida não como morte, como experiência fixa, mas como vibração e fabricação.

Sempre que me encontro com Raimundo Carrero estamos a dividir dúvidas. A

Os Extremos do Arco-íris

dúvida é nosso pão. Como transformar isso naquilo? Como fazer disso outra coisa? Como se manter inquieto e insatisfeito, para que a vida jamais tome a aparência de uma pedra? Esta é a base do espírito armorial: a pergunta. Sim, o artista parte da realidade, parte do social, parte da comunidade, mas não deve se deter naquilo que herdou. Não deve se satisfazer com as aparências recebidas desde o passado. O artista olha para a frente — olha para o futuro. Quando está em casa diante de seu aparelho de TV a acompanhar, ansioso, o fervilhar das notícias, também assim Carrero se comporta. Observa o presente — mas é o futuro que vislumbra. Deixa-se afetar pelo real — mas é a sombra do irreal, ou do supra real, que o alimenta. Não se limita a olhar para a frente, mas salta, impetuoso, rumo ao que vem depois do que pode ver. Depois do futuro, existem outros futuros. Para além do possível, existe o impossível. Tudo se mexe e tudo treme e, no entanto, é ainda da realidade que se trata. É essa realidade trêmula e inquieta que interessa a Carrero.

A postura armorial, que ele veste a seu modo, é a postura das perguntas. Vejo algo, sei que vejo, mas o que pode haver atrás disso? Persigo uma ideia, como louco, mas sei que, para além dela, sem que eu perceba, outras ideias ainda mais longínquas e improváveis me arrastam. Carrero acompanha o noticiário — ele que é jornalista de formação — com a ansiedade de um menino. De um estagiário. Os fatos e as explicações não lhe bastam. O que vê também não é suficiente. Está ali, em sua poltrona, diante da TV, mas está no reino da insuficiência. A realidade não pode ser só essa parede dura e áspera que nos estanca os passos. Enquanto as notícias se desenrolam, ele as perfura. Quer ver “através” delas. É nas frestas da realidade, tal qual nos é apresentada, que o futuro pulsa. É “através” do real que o real emerge.

Não é um “naturalista” que, com sua espátula, se limita a observar e reproduzir detalhes e sutilezas. Não é um colecionador de fatos — até porque a realidade não se deixa aprisionar e catalogar. Sempre foi um homem turbulento e insatisfeito — e esses atributos estão presentes já em seus primeiros romances. Carrero toca nas coisas do real não para acalmá-las, mas para embaralhá-las. A mistura define sua escrita — que remexe gêneros, ideias, citações, propostas, perguntas, dissolvidas no bojo do mesmo caldeirão.

Quando nos conhecemos, lhe disseram que devia se afastar de mim. De caráter franco e direto, não se deteve nas frestas do mal-entendido e da maledicência. Perguntou-me com clareza: “É verdade que você não gosta de mim”? Não nos conhecíamos. Estávamos, ambos, enroscados em palavras que não eram nossas. Presos a uma armadilha que não nos dizia respeito. A realidade não é algo que se aceite passivamente. A realidade, para se tornar real, para merecer esse nome, deve ser desafiada e sacodida. Revirada como uma roupa que apenas julgamos conhecer. Desafiada, como algo que devemos enfrentar, e não apenas aceitar. E foi o que fizemos com o mal-entendido de nossa inimizade.

Sinfonia para vagabundos

Começamos a conversar — e não paramos mais. Da dúvida — da mentira? — surgiu uma verdade que é muito maior. Com frequência, alongamos nossas conversas ao telefone sem ter um objetivo, ou alguma esperança. Queremos só estar juntos. Juntos, testemunhamos essa grande agitação que nos ensinaram ser a realidade. Em que região estamos? Onde pisamos? Que realidade é essa que percorremos? Não se trata mais “do nordeste”, ou “do sertão”, ou das “coisas regionais”, mas sim de algo vívido que ultrapassa toda geografia. Somos “regionais” porque estamos no mundo e não fugimos de nós mesmos. Somos “regionais” porque nos acostumamos a aceitar a grande barafunda que nos define enquanto humanos. Somos “regionais” porque não abrimos mão de nós mesmos.

Diante da insuportável realidade, a grande pergunta oferecida por Carrero é: “como posso modificá-la”? Pratica uma escrita de ação, que deseja influir, alterar, perturbar. Não se limita à descrição passiva dos cenários, ou de seus personagens, escreve para desafiá-los a tentar novas formas de ser. Sua literatura tem, ou deseja ter, uma utilidade. Não ser apenas decoração ou luxo, ser sobre tudo ação. Carrero escreve em busca do novo. Mas não o novo da moda, ou do marketing, não o novo empacotado pelas tendências estéticas, ou pelo mercado. Diante da realidade brutal, procura novas formas de olhar. Contorce a realidade — como uma mulher que torce seu pano de chão — tentando dela extrair o sumo da verdade. O escritor não é um contemplador, mas um aventureiro em ação. Sim: para Carrero, logo aprendi isso, a literatura é uma aventura.

Quando estamos juntos, é sobre esses movimentos vivos do real que nos debruçamos. Estamos sempre aflitos, inquietos, insatisfeitos com as soluções, ou as descrições que nos apresentam. Queremos mais — com Raimundo Carrero, aprendi a querer sempre mais, muito mais do que parece razoável, ou possível. Antes da pandemia, tínhamos o hábito de sair para um café longo, uma conversa sem fim, um longo devaneio ao ritmo das palavras. Não tínhamos um objetivo, ou um destino, tampouco nos guiávamos por perguntas prontas. Deixávamos a mente flutuar, as perguntas espocarem, as dúvidas se fortalecerem. A realidade não é uma pedra, ela se assemelha mais à água que borbulha.

Raimundo Carrero
Raimundo Carrero

Pensando nesses encontros à luz do sol, e ao sabor da ventania de pensamentos, entendo um pouco melhor a escrita de Carrero, feita, ela também, de ondas, de “surtos”, oscilações. Desde os primeiros livros, Raimundo Carrero despeja em seus relatos um amontoado de ideias, cenas, pensamentos, personagens que, nem sempre, parecem sincronizar entre si. Desde os primeiros livros, Raimundo Carrero escreve por jorros: as palavras se derramam quentes e em ebulição, os pensamentos chegam a queimar a mente de quem lê. Alguma coisa fervilha e queima. A leitura de seus primeiros relatos, que refaço agora com zelo quase religioso, é um mergulho nas origens da escrita.

Vejam as datas — é tudo muito rápido. Raimundo Carrero (1947, Salgueiro) publicou “A dupla face do baralho” aos 27 anos. Aos 30, veio com “Viagem ao ventre da baleia”. Cinco anos depois, lançou dois outros relatos: “Os extremos do arco-íris” e “Sinfonia para vagabundos”. Reunidos agora em impecável reedição, esses quatro livros desenham a alma de um escritor que ainda lutava para nascer. Eles nos ajudam a pensar sobre as difíceis origens da ficção. Sobre o modo doloroso e atordoado com que uma ficção enfim nasce.

“A dupla face do baralho” traz as confissões de um velho, o comissário Felix Gurgel. À beira da morte — debruçado sobre o abismo, como todo escritor -, ele se detém em sua própria história, tentando ordenar o que não se pode ordenar, entende o incompreensível. Toda confissão se ergue na esperança de um sentido. Toda confissão é um desejo de coerência e de verdade. Contudo, a visão do abismo leva o comissário a perceber que, para além das trevas, só existem mais trevas. Em ambos os lados — do bem e do mal -, o humano se arrasta. E o humano é sempre paradoxo, insensatez e frustração. Não é uma charada que alguém “resolve”. Não tem resposta — a cada pergunta que fazemos, surgem mais perguntas.

Enquanto o velho comissário remexe em seu passado, é o jovem escritor Raimundo Carrero que se empenha em organizar um caminho para si. As pegadas de Félix Gurgel são fracas, quase ilegíveis. Na esperança de encontrar um sentido, é diante da falta de sentido — atributo primeiro da linguagem — que o jovem escritor se vê. Escritores nascem em meio às sombras. É no enfrentamento dessa escuridão interior, na entrega a estilhaços que não se deixam dominar, que a ficção se afirma. A ficção é o que resta desse esforço humano, e inumano, para acreditar no real. O real é o que sobra depois da imensa luta.

Este conjunto de quatro relatos juvenis de Raimundo Carrero que agora nos chega se oferece com um guia às dores do parto. Neles, algo explode — é o próprio escritor que explode. Ali, naquela convulsão primordial que se assemelha a um Big Bang, sem rédeas, sem certezas, às cegas, tateando no grande silêncio da existência, uma literatura começa a se esboçar. Estamos diante de um jovem escritor que se ergue e que luta para se firmar sobre as próprias pernas. Diante de escritor que luta para nascer. Não existem garantias. Nenhuma segurança. Tudo é luta.

Avançando na luta com as palavras, chegamos não só ao interior do ventre da

Viagem no ventre da baleia

baleia, mas àquele grande ventre vivo dentro do qual a escrita, que é puro caos, tenta se organizar. Leia-se a “Viagem ao ventre da baleia”. O que encontramos? Os impulsos da carne se chocam com os dogmas espirituais. As incertezas se misturam às verdades divinas. Nas sombras e dobras do grande ventre, tudo ferve e se dissolve, tudo fermenta e pulsa — e, por isso, não devemos esperar nenhuma coerência, ou nenhuma lição existencial. A luta contra o poder se dissolve na fé. A fé se encarna nas desgraças que a condição humana porta. A palavra tenta se impor ali onde só ouvimos rugidos e berros. Tudo é incerto e imprevisível — e, por isso, é vivo.

Os diálogos, em consequência, parecem impossíveis. O diálogo, a rigor, não passa de uma utopia. A própria fé, curvada pelos socos do real, se torna só uma espécie de sonho, ou talvez de ilusão. As palavras de Cristo se misturam com as pregações revolucionárias. A esperança se confunde com o medo. No avançar da escrita, que é cheia de perguntas e de vacilações, um jovem escritor rascunha seu destino. Mas como vislumbrar um destino quando tudo é torpeza e fragmento? Como encontrar um caminho quando todas as pontes se ruíram e todas as cancelas se fecharam?

O jovem escritor está, todo o tempo, falando de si e de sua luta contra a palavra. Que bicho indomável é este, a palavra, que não se deixa montar e dominar? Como desenhar um destino quando tudo é fragmento e turvação? A luta do jovem personagem é, também, a luta do jovem escritor. Eles se equivalem, eles se representam e se misturam. Ao escrever sobre o outro, ao tentar chegar à alma do outro, é a si que o escritor retorna. É diante de si que ele se despe. Sem saber, sem desejar isso, sem nada planejar, o escritor se despe diante do leitor. Expõe suas feridas, suas cicatrizes, suas fraquezas. Desnuda-se — e a verdade lateja.

Na dupla face do real — antecipando nossos dias de hoje? — o jovem escritor sacoleja entre os extremos. Que sejam os extremos do arco-íris, ou então os extremos do ser. A escrita do jovem Carrero é puro fragmento. Um escritor que nasce não pode partir de imagens prontas, tampouco pode acreditar em verdades herdadas. Deve duvidar de tudo, até porque a dúvida é o melhor instrumento de que ele dispõe para acessar o ventre do real. A realidade é insuportável. Ninguém pode desenhá-la, ou capturá-la. Ela é um bicho selvagem que se sacode, muge e escapa. Cheio de fúria, o jovem escritor corre atrás de seu monstro. Escrever é entregar-se a essa perseguição. Jamais derrotará seu inimigo. Mas o vigor da luta o engrandece.

Por isso mesmo, os relatos do jovem Carrero carregam essa quentura desmesurada, esse despudor cheio de fé, esse desejo de entrega absoluta que ainda hoje nos assombra. A convicção cega de que só no borbulhar da vida, e em nenhum outro lugar, a verdade pode emergir. O jovem Carrero não está preocupado com o “bem escrito”, tampouco se detém nas técnicas de composição, ou nos passos brilhosos da tradição literária. Busca, mais, a decomposição — um texto que, como ácido, corroa e desmonte uma condição literária em que já não é mais possível acreditar.

Visto assim, o texto se assemelha a um bebê que, preso a seu berço, esperneia e se esgoela na esperança de que um leite benigno o sacie. Bebês não têm limites, têm necessidades e desejos intermináveis. Esgoelam-se na esperança de impor ao mundo sua vontade. São pequenos tiranos. Também o jovem Carrero não aceita coações, nem negocia com bons modos, ou com o razoável. Entrega-se, em fúria, ao roldão das palavras, atira para todos os lados, aceita todos os desafios. Quer experimentar de tudo, precisa da ideia do “tudo” para vir a ser. É onipotente, audacioso, temerário. Não cede às boas intenções, ou às normas vigentes. Tudo isso, para ele, é resto. Como na explosão primordial do Universo, tudo o que lhe interessa é a luz vibrante que se desenrola no espaço-tempo e que, anárquica e ardente, é a própria realidade a se criar.

Nesse sentido, a escrita do jovem Carrero se assemelha a uma sinfonia selvagem — uma sinfonia que salta para fora da pauta musical, que lateja e treme, e que penetra nas ranhuras do real. O mundo transborda enquanto as palavras tocam. A beleza e o terrível se misturam sem nenhuma esperança de solução, ou de conforto. O mundo é feio e bonito, é digno e ignóbil, é sábio e cego. É dessa confusão incandescente, dessa grande bola de fogo que explode em palavras, que o jovem escritor deve arrancar suas palavras.

É, pois, emocionante — é uma grande lição - ler esses relatos primordiais de Carrero. Não porque sejam perfeitos, ou espetaculares, não porque superem ou mesmo se equivalham a sua grande obra posterior. Mas porque são puro sangue, puro tremor, gestação dolorosa e bela de uma escrita que luta para nascer. No ventre da baleia — no ventre das palavras -, antes ainda das dores do nascimento, temos a chance de testemunhar uma ficção que se engendra. Uma ficção que esperneia e berra, que se descabela e se supera, preparando a chegada do escritor. Não é sempre que temos a chance de penetrar nesse mundo primitivo e anterior, no qual a arte, em pulsação pura, se arquiteta. Nem sempre estamos autorizados a pisar nos bastidores da vida. Essa chance nos é oferecida agora, quase que como um sacrifício — o escritor aceita mostrar as feridas e as cicatrizes de que sua ficção partiu. Abandona a pose para expor a vida.

Só temos a agradecer a Carrero que, como um guia paciente e meticuloso, nos escolta nessa aventura pelos subterrâneos que antecedem ao nascimento de sua ficção. Nas entranhas da prosa, nos tornamos visitantes atentos e surpresos que, em um retorno quase mágico ao passado perdido, temos a chance de testemunhar o grande caldeirão em que a escrita de Raimundo Carrero nasceu. A reunião desses quatro relatos de origem, portanto, nos oferece uma chance, talvez única, de retornar aos antecedentes da prosa de ficção. Ali estão a aflição e o desejo, estão também a tonteira e a cegueira, e ainda a torrente de ideias — brutas, não lapidadas, selvagens — de onde as palavras, serenas, enfim emergirão.

Aqui cabe recordar um breve trecho de “O corpo e a arte”, um dos capítulos do corajoso “O senhor agora vai mudar de corpo”, livro maduro e central publicado em 2015 que, infelizmente, grande parte dos leitores, mesmo os mais “instruídos”, até hoje não soube ler. Escreve Carrero: “Começa a decidir que tudo isto, toda esta imensa contorção do Homem deve ser colocada no papel, escrita, para desvendar seu mundo interior, sua completa derrota, sua frágil, inquieta e tenebrosa condição humana. Está na hora de despejar todas as verdades”. Fala Carrero aqui da difícil experiência de reconstrução que enfrentou depois do AVC sofrido em 2010. Reconstrução que resultou não só em um novo homem, mas em um novo e ainda mais audacioso escritor. Mas é também sua luta com as palavras que ele despeja.

Mais uma vez, é do disforme, da experiência que apenas fervilha, de uma coragem que se aproxima da derrota, que Carrero deve — repetindo a saga de seu nascimento de escritor — se reorganizar, se recompor e voltar a si. “O senhor vai mudar de corpo” é, de certo modo, o relato de um segundo nascimento, daí o paralelo tenso e assustador que estabelece com seus livros de juventude. Também na juventude, tudo o que Raimundo Carrero tinha era um sopro feroz que o agitava, um desejo ardente que o oprimia, uma colcha de ideias soltas que o envolviam e sufocavam. Contudo, foi nessa paisagem selvagem e inumana, foi a partir do que desconhecia e do que sequer conseguia aceitar, foi a partir de uma grande explosão que ele teve que compor sua obra.

Nesses quatro livros primordiais se guardam todo o furor e todo o atordoamento que, desde muito cedo, sustentam a escrita de Raimundo Carrero. Neles, tudo ainda está em ebulição, tudo ainda ferve e queima, ali está a matéria viva da escrita. Ao meter a mão em seu próprio espírito, ao interrogar sua própria mente, ainda inseguro, Carrero chegou aos elementos essenciais de sua arte. Deles arrancou sua ficção. Agora, de volta ao berçário das palavras, ele exibe suas mãos queimadas e sua face em pleno assombro. Cicatrizes da juventude que, enfim, resguardadas pela distância do tempo, hoje pode serenamente ostentar.


(FIM)

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