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Diálogos entre o silêncio e o ruído


leitura de RUÍDO SILÊNCIO

Texto de Suzana Pagot


A atmosfera que se instaura em Ruído Silêncio é um convite para mergulhar na sensibilidade da arte de poetar. A obra permite entrever a acuidade e os labirintos da alma, as dores e os arrebatamentos do corpo, a angústia e a solidão, tão próprios, tão singulares da subjetividade, pois sabe que “somos caminhos traçados/ como o sol/ muda de rumo/ a cada estação/ nasce e morre/ como nosso destino/ ou desatino”.


A poesia de Dora Lampert cria uma teia de sentidos e oferece generosamente no título uma das chaves possíveis para entrar no jogo de linguagem de seus poemas. Ao utilizar a antítese como recurso recorrente de composição, a poeta não apenas potencializa o sentido das ideias que coloca em oposição, como também confere, pelo caráter da dualidade, a força expressiva de sua poesia, alinhavando o fio condutor de sua obra.


Ao percorrer o caminho da dualidade, como tantos outros poetas ao longo da tradição literária, a voz lírica confidencia que “os acordos entre as palavras/ serão sempre silenciosos/ como o que perambula por dentro/ mas tremula nos olhos rasos”. Ciente de que a palavra diz, de que o verbo cria, de que a linguagem revela, a voz lírica pergunta sobre o sentido que esses acordos em seus silêncios evidenciam, indagando, ademais, sobre os “ruidos”, os “silêncios” capazes de compor a cena da condição do ser.

capas externas ruído silêncio

Entre o “silêncio” e o “ruído”, está a poesia envolta em redemoinhos de sentimentos traduzidos pelas imagens construídas, ora a partir da ambiguidade das relações entre um eu e um tu em seus encontros e desencontros, confessando que “queria meu silêncio/ te acordando/ mais uma vez antes do fim/ não te espantes/ antes do tempo de minha chegada/ porque talvez/ não venha nunca”; ora, ainda, em um momento confessional, declarando “gosto de música/ ruído silêncio/ gosto de ficar só/ quero amor olhos nos olhos”.


Em muitos poemas, o eixo semântico se expande para as forças da natureza, que intempestivas, assumem o protagonismo poético, revelando a fragilidade humana em meio ao caos, visto que “O vento azulado do frio/ arrastou pesadamente/ cortinas de renda puída/ como dedos/ de uma pianista iniciante”. No entanto, empenhada em não se deixar abater, a voz lírica encontra em seu itinerário a coragem de seguir em frente, mostrando que é possível fazer emergir a vida, porque “se não tem arco-íris/ a gente desenha/ uma flor qualquer/ para trazer de volta/ um pouco da primavera/ no inverno de ausências”.


Outro tema sobre o qual a poeta lança um olhar muito sensível é a questão da temporalidade. Da mesma maneira em que denota a consciência da transitoriedade da existência, busca rebelar-se, desencadeando tensões, afastamentos e aproximações que resultam em metáforas inesperadas, como nos versos: “arranco meu avesso/ sombra de teu começo/ letras levariam um século/ a te dizer tudo/ no ínfimo tempo desconhecido/ eternidade”.

Dora Lampert
Dora Lampert

Ao transitarmos pela linguagem poética de Dora Lampert, ficamos sabendo que “folhas secas não são pontos finais/ são vírgulas entre estações frias/ não pontuam/ tropeçam sobre o tempo/ abrindo sonhos/ para que se veja/ o céu virando exclamações”, que na vida “às vezes leva tempo/ noutros um instante” e nos deixamos conduzir para entrar com ela em um dos lugares mais emblemáticos de um universo poético, a casa, na qual a voz lírica segreda que "habitar uma casa/ habitar tua casa/ levo flores/ espero que durante minha ausência/ as percebas e ali deposites/ teus melhores pensamentos são minha forma de habitar uma casa”


Na disputa em meio às emoções conflitantes que permeiam a obra, é possível perceber o dilema que se instaura no movimento de ocultamento e desvelo dos labirintos da sensualidade que se manifesta em uma voz lírica por vezes contida, porque “parada ao meio fio/ a minha menina/ espera que venha/ com suas miríades/ o assombro de setembro/ e que meu sangue rufe/ aos seus tambores”. E, em outros momentos, capaz de transpor os limites, devaneando desmedida e delirante, como nos versos “feito náufraga/ um mar/ me toma/ na madrugada/ não me rendo/ ao sonho/ muito menos/ ao pesadelo/ apenas/ me deixo transbordar “.


As composições poéticas ao longo da obra sinalizam diferentes nuances de complexidade, tanto em relação aos recursos de linguagem, quanto aos aspectos formais de composição. O último poema, entre outros, é um exemplo muito significativo desse matiz. Os espaços em branco, os silêncios desenhados pelo trabalho de organização dos versos e estrofes influenciam nas perspectivas que esses brancos engendram juntamente com as palavras, pluralizam as possibilidades de leitura, resultando em densidade poética e multiplicidade de sentidos.


nada

se compara

ao que jamais sonhei

ao que eu quis

ao que precisei


nada



aqui eu me encontro





Dora Lampert entra para o cenário literário empenhada em deixar vir à tona a alma das palavras. No intermédio de Ruído Silêncio está a poesia particular, intuitiva, confessional, emotiva, que concebe novas formas de sentir, de pensar e olhar para as contradições humanas, instigando os diálogos possíveis que o leitor pode construir com a obra.


Suzana Pagot

poeta

Dra em Literatura

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